Maze IV: por que uma única falha na linha de ablação pode comprometer o resultado?
Transmuralidade, continuidade das lesões e estratégia cirúrgica: o que as evidências revelam sobre a eficácia do tratamento da fibrilação atrial.

O procedimento Cox-Maze IV consolidou-se como uma importante estratégia cirúrgica para o tratamento da fibrilação atrial (FA). Com o uso de radiofrequência bipolar e crioablação, tornou possível reproduzir o conjunto de lesões do Maze tradicional com menor complexidade técnica.
Mas existe uma questão fundamental para os resultados em longo prazo: não basta criar as linhas de ablação. É necessário que elas constituam barreiras efetivas e duradouras à condução elétrica.
Estudos recentes reforçam que a continuidade, a transmuralidade e a distribuição anatômica das lesões são determinantes para o sucesso do procedimento.
O que acontece quando a linha de ablação não é completa?
O objetivo do Maze IV é interromper os circuitos elétricos responsáveis pela manutenção da fibrilação atrial, criando barreiras de condução em regiões específicas dos átrios.
Para isso, as lesões precisam atravessar toda a espessura do tecido atrial — característica conhecida como transmuralidade — e apresentar continuidade ao longo do trajeto planejado.
Quando permanecem pequenas regiões de tecido eletricamente viável entre as lesões, podem surgir vias de recondução que favorecem a recorrência da fibrilação atrial ou o desenvolvimento de taquicardias atriais organizadas.
Essa relação entre integridade das lesões e resultados clínicos foi abordada no consenso internacional de ablação da fibrilação atrial de 2024, publicado no Europace. O documento cita um estudo retrospectivo em que a ausência de fibrilação atrial, sem uso de antiarrítmicos, após cinco anos foi observada em:
66% dos pacientes submetidos ao isolamento da parede posterior do átrio esquerdo;
33% daqueles sem o isolamento completo dessa região.
Embora esses resultados sejam provenientes de uma população específica e não representem uma estimativa universal de eficácia, ilustram a importância da estratégia de lesões escolhida.
Recorrência após Maze: o que o mapeamento eletrofisiológico revela?
Um estudo conduzido por pesquisadores da Mayo Clinic, publicado no periódico Heart Rhythm em novembro de 2025, investigou os mecanismos de recorrência de arritmias após procedimentos Maze.
Foram analisados 86 pacientes que, após a cirurgia, necessitaram de nova ablação por cateter em razão de fibrilação atrial ou flutter atrial recorrente.
O mapeamento eletroanatômico identificou reconexões de veias pulmonares e lesões lineares incompletas como mecanismos frequentes de recorrência nesse grupo.
O achado reforça uma questão técnica importante: a formação de uma lesão aparentemente adequada durante a cirurgia não garante, isoladamente, que o bloqueio elétrico permanecerá completo e duradouro.
Por se tratar exclusivamente de pacientes encaminhados para reablação, esses resultados não podem ser extrapolados para todos os indivíduos submetidos ao Maze IV.
Mais lesões significam necessariamente melhores resultados?
A resposta é mais complexa.
Uma revisão sistemática publicada em agosto de 2026 no periódico Frontiers in Cardiovascular Medicine analisou 25 estudos sobre ablação cirúrgica concomitante à cirurgia da valva mitral.
Os autores identificaram a configuração e a integridade das lesões como fatores relevantes para os resultados de controle do ritmo.
Embora conjuntos biatriais sejam mais abrangentes e possam oferecer vantagens em determinados pacientes com FA persistente ou persistente de longa duração, também exigem consideração cuidadosa sobre a complexidade do procedimento e o risco de implantação de marca-passo definitivo.
O trabalho destaca que a qualidade e a continuidade das lesões podem ser mais importantes do que simplesmente ampliar sua quantidade.
Isso torna a individualização da estratégia cirúrgica essencial, considerando a duração e o tipo de FA, o tamanho atrial, o substrato anatômico e o risco operatório.
Onde a tecnologia de radiofrequência bipolar faz diferença?
A criação de lesões transmurais consistentes exige controle sobre a interação entre energia e tecido.
No sistema Isolator Synergy, da AtriCure, a radiofrequência bipolar é aplicada por dois pares de eletrodos, com campos alternados e sobrepostos, concebidos para formar uma lesão com maior uniformidade ao longo da espessura do tecido.
O sistema também monitora a condutância tecidual 50 vezes por segundo e ajusta os parâmetros de energia durante a aplicação.
Outro aspecto é o fechamento paralelo das garras, projetado para manter contato e compressão uniformes.
Esses recursos buscam favorecer a formação consistente de lesões transmurais. Entretanto, nenhum parâmetro tecnológico isolado substitui a seleção correta dos pacientes, a execução adequada do conjunto de lesões ou a avaliação do bloqueio elétrico quando indicada.
A tecnologia é uma ferramenta para a precisão cirúrgica, não uma garantia independente do resultado.
O Maze IV começa antes da primeira lesão
Os avanços em radiofrequência, crioablação e dispositivos para exclusão do apêndice atrial esquerdo ampliaram as possibilidades do tratamento cirúrgico da fibrilação atrial.
Mas a eficácia depende da integração entre indicação clínica, planejamento anatômico, execução técnica e acompanhamento pós-operatório.
O princípio permanece: o resultado de um procedimento de ablação não é determinado apenas pelas lesões realizadas, mas também pelas vias de condução que elas efetivamente conseguem interromper.
Para o cirurgião cardíaco, compreender essa diferença é fundamental na definição de estratégias que busquem resultados duradouros no controle da fibrilação atrial.
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Referências científicas
Tzeis S, et al. 2024 EHRA/HRS/APHRS/LAHRS Expert Consensus Statement on Catheter and Surgical Ablation of Atrial Fibrillation. Europace. 2024. https://doi.org/10.1093/europace/euae043
Goings D, et al. Atrial arrhythmia recurrence after the Maze procedure: Insights from catheter-based mapping. Heart Rhythm. 2025. https://doi.org/10.1016/j.hrthm.2025.11.019
Nurbay Z, et al. Concomitant surgical ablation for atrial fibrillation in mitral valve surgery: a systematic review of clinical outcomes and surgical strategies. Front Cardiovasc Med. 2026. https://doi.org/10.3389/fcvm.2026.1857413
Nina VJS, et al. Tratamento Cirúrgico da Fibrilação Atrial: Atualização. Braz J Cardiovasc Surg. 2025. https://doi.org/10.21470/1678-9741-2025-0999




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